Olá a todos!
Disclaimer do costume, e hoje é mais importante do que nunca: sou cliente de uma subscrição da Anthropic. Uso o Claude Code, e continuo a achar que há trabalho que nenhum modelo aberto me faz tão bem até porque não consigo competir com a infraestrutura da Anthropic. As opiniões neste e em outros posts são minhas e reflectem apenas o meu pensamento e não são as dos meus Clientes ou Empresa.
De notar que não escrevo isto por antipatia ao produto. Escrevo porque separo, e acho que todos deviam separar, a qualidade de um produto da legitimidade daquilo que a empresa que o vende anda a pedir aos governos.E aquilo que a Anthropic anda a pedir aos governos, por muito bem escrito que venha, tem um nome. Chama-se mais proteger um investimento e menos fomentar inovação.
Irei apresentar o caso com datas, porque datas neste caso valem mais do que intenções.
A cronologia…
A 28 de Maio de 2026, a Anthropic fecha a maior ronda de capital de risco privado de que há registo: 65 mil milhões de dólares, numa avaliação pós-money de 965 mil milhões. Nessa mesma altura anuncia uma receita anualizada de 47 mil milhões, com a esmagadora maioria a vir de chamadas de API pagas ao token.
A 1 de Junho, quatro dias depois, entrega à SEC um pedido confidencial de entrada em bolsa.
A 24 de Julho, o Jensen Huang publica a primeira mensagem da sua vida no X. Não é sobre chips nem sobre resultados. É uma carta aberta, assinada por mais de vinte empresas de tecnologia, a pedir a Washington que não imponha restrições aos modelos de pesos abertos. Nvidia, Microsoft, Meta, Google, Hugging Face, Mistral, Palantir. Dias depois, a OpenAI assina também. A Anthropic fica de fora, sozinha entre os grandes laboratórios americanos.
Três dias de silêncio. Um conselheiro da Casa Branca para a IA vem dizer em público que a Anthropic está a usar preocupações de segurança para proteger o seu modelo de negócio.
A 27 de Julho, o Dario Amodei publica Our position on open-weights models.
Agora ponham-se no lugar de um analista que vai ler um prospeto de entrada em bolsa daqui a três meses. Que é que ameaça, estruturalmente, uma receita de 47 mil milhões construída sobre preço por token? Não é a OpenAI, que cobra mais ou menos o mesmo e tem exatamente os mesmos custos. É a existência de alternativas descarregáveis, que qualquer empresa pode pôr a correr no seu próprio ferro, e que todos os meses ficam um bocadinho mais próximas do que basta.
Um laboratório que está a semanas de se sentar à frente do mercado público não pode dar-se ao luxo de ter essa ameaça a crescer sem resposta. E a resposta não pode ser baixar preços, porque baixar preços destrói a margem que sustenta a avaliação. Tem de ser outra coisa.
A outra coisa está naquele texto de 27 de Julho.
O truque retórico. Ninguém pediu diretamente uma proibição
A frase de abertura do artigo é impecável: a Anthropic nunca defendeu proibir modelos de pesos abertos. E é precisamente por ser verdade que funciona tão bem.
Uma proibição é má ideia para quem a quer. É visível, é impopular, é revogável na legislatura seguinte, e cola-se à testa de quem a pediu. O que aquele texto propõe é muito melhor do que uma proibição, do ponto de vista de quem tem 965 mil milhões para defender: propõe três medidas que produzem o mesmo efeito prático, se aplicam de forma permanente, ficam escritas em regulamento técnico que ninguém lê, e nunca podem ser chamadas protecionismo em cima de um palco. Na pratica não é por não dizer que não querem causar precisamente isso.
Vejamos as três, uma a uma, com uma única pergunta a cada: a quem é que isto dói?
Não vender chips avançados à China. Isto tem argumentos de segurança nacional legítimos e não vou fingir que não tem. Mas o efeito, esse, não é ambíguo: reduzir o número de organizações no planeta com capacidade de treinar na fronteira. Dói exatamente aos laboratórios que produziram, nos últimos dois anos, os modelos abertos que puxaram os preços de toda a gente para baixo. Não dói nada a quem tem contratos de computação de trinta mil milhões assinados com a Azure.
Travar a destilação à escala industrial. Aqui a máscara escorrega e vê-se a cara. A destilação é o mecanismo pelo qual um modelo pequeno se torna bom. É a razão pela qual um modelo que corre na vossa sala faz hoje o que há dezoito meses exigia um centro de dados alheio. E reparem no argumento que ele próprio usa para a condenar: que a destilação não dá à China capacidades superiores, apenas a coloca a poucos meses da fronteira americana.
Leiam isso outra vez. O perigo alegado não é o modelo fazer coisas horríveis. O perigo alegado é a distância competitiva encurtar.
Isto não é um argumento de segurança com um efeito comercial acidental. É um argumento comercial, escrito com todas as letras, dentro de um contexto sobre segurança nacional. E “escala industrial” é uma expressão que não tem definição, não tem limiar, não tem número. Fronteiras sem número são desenhadas mais tarde, por quem tiver mais advogados na sala.
Testes de segurança obrigatórios para todos os modelos suficientemente capazes. É a medida mais inteligente das três e, por isso, a mais eficaz. Testar modelos antes de os libertar é sensato. Eu assino. Não conheço argumento sério contra.
Só que testar custa dinheiro, custo é barreira, e barreira é um muro.
Para uma empresa com 47 mil milhões de receita e equipas inteiras dedicadas a avaliações de risco desde antes de isto ser moda, o teste obrigatório é uma linha de orçamento que já está paga e um selo de qualidade que já está garantido. Para um laboratório europeu, uma universidade, um consórcio a treinar um modelo para português, é a diferença entre publicar e não publicar. Quem escreve o exame é quem já o passou. E quem define “suficientemente capaz” define, no mesmo gesto, quem tem direito a existir do lado de dentro.
Ele antecipa a objeção e diz que startups e academia ficariam isentas. Muito bem. Então tudo depende de onde fica a linha e de quem lhe mexe. E há um pormenor que quase ninguém refere: a linha fica quieta e os modelos melhoram. O modelo que hoje está isento por ser fraco estará, daqui a três anos, do lado caro da fronteira. A isenção de hoje é a fatura de conformidade de amanhã.
Três medidas. Zero proibições explicitas. E, no fim, um mercado em que treinar na fronteira exige autorização geopolítica, tornar modelos pequenos bons exige advogados, e publicar seja o que for exige um orçamento de conformidade que só meia dúzia de empresas tem.
A frase que devia ter feito soar os alertas
Há uma linha naquele texto que, para mim, é a mais reveladora de todas. O Amodei reconhece que uma proibição protegeria as empresas americanas de IA da concorrência, e acrescenta que esse nunca foi o objetivo dele.
Entendam o que ele diz ali. Ele viu o efeito. Descreveu-o corretamente. E depois arrumou-o com uma declaração sobre o seu estado de espírito.
O problema é que estados de espírito não se auditam. Balanços auditam-se.
E há uma coisa que eu aprendi a olhar para empresas durante os trinta e três anos em que trabalho na area: quando alguém sente necessidade de dizer que o efeito da sua proposta é blindá-lo da concorrência mas que essa não é a intenção, é porque já viu o desenho da proposta com clareza suficiente para saber como é que ela vai ser lida. Ninguém se defende de uma acusação que não percebeu.
Podem acreditar na sinceridade dele. Eu, por acaso, até acredito que ele acredita. Mas há uma pergunta que resolve isto sem entrar na cabeça de ninguém: destas três medidas, quantas custam alguma coisa à Anthropic?
Os chips, nenhuma – até porque os novos dados da Huawei já começaram a mostrar que conseguem fazer mais com menos gasto energético. A destilação, nenhuma, aliás beneficia-a diretamente, porque é o trabalho dela que anda a ser copiado. Os testes obrigatórios, praticamente nenhuma, porque a fatura já está paga e o resultado já está garantido.
Uma proposta de segurança em que todo o custo cai nos concorrentes e todo o benefício fica em casa não é uma proposta de segurança. É estratégia comercial com fundamentação técnica. Bem feita, note-se. Das melhores que já vi.
Isto não é um episódio, é a novela que temos visto a acontecer com mais frequência ultimamente
Quem acompanha a intervenção pública desta empresa há dois anos já viu este molde antes.
O padrão é sempre o mesmo: apoiar regulação exigente, defender controlos de exportação, insistir em limiares definidos pela capacidade dos modelos. Ou seja, defender consistentemente um sistema de regras cujo custo de cumprimento é trivial para quem tem mil pessoas e dez mil milhões em caixa, e proibitivo para quem tem quinze pessoas e uma bolsa.
Chamar a isto hipocrisia seria injusto e, pior, seria pouco rigoroso. Não é hipocrisia. É coerência perfeita entre aquilo em que a empresa acredita e aquilo de que a empresa precisa. As duas coisas apontam para o mesmo sítio, e por isso nunca há um momento de conflito interno em que alguém tenha de escolher. É esse alinhamento total que torna esta operação tão eficaz e tão difícil de contestar sem parecer paranóico.
Eu já escrevi aqui, a propósito da página de estado, que o cliente governamental tem uma linha verde e vocês têm um “melhor esforço”. A lógica é a mesma e é simples: os recursos, as garantias e a advocacia política caem sempre na direção de quem mais pode punir a empresa por faltar. Um regulador pode punir. Um concorrente aberto não pode ser punido, mas pode ser encarecido. Vocês, no meio, não podem fazer nada, exceto pagar.
E vocês, no fim disto, pagam quanto?
Aqui é que a coisa deixa de ser geopolítica e passa a ser fatura.
Respondam-me a uma pergunta: alguma vez o preço de alguma coisa, na história da informática, desceu por bondade de quem a vendia?
Os certificados SSL custavam centenas de euros por ano até aparecer a Let’s Encrypt. O preço foi a zero e a web inteira passou a HTTPS. As licenças de Unix eram um imposto sobre quem queria servidores a sério até um estudante finlandês publicar um kernel. A Oracle cobrava por processador aquilo que o Postgres hoje faz melhor e de borla. Em todos os casos, o preço desceu porque apareceu uma alternativa credível, e não porque alguém teve um momento de generosidade num conselho de administração.
Na IA, isto aconteceu à nossa frente, mais do que uma vez, nos últimos dois anos. Cada vez que apareceu um modelo aberto competente, os preços por token desceram, apareceram escalões baratos que não existiam, as janelas de contexto cresceram. Ninguém acordou generoso nessas manhãs.
O mecanismo é este, e é tudo o que interessa reter deste artigo: um modelo aberto competente é um teto. É a alternativa que o vosso diretor financeiro tem no bolso quando se senta a renovar o contrato. O modelo fechado deixa de poder cobrar o que quer e passa a ter de justificar a diferença entre ele e o teto. Quando essa diferença é real, paga-se com gosto. Quando não é, não se paga. Chama-se a isto um mercado.
Retirem o teto e o preço deixa de ser fixado pelo valor que aquilo tem para vocês e passa a ser fixado pelo que o vendedor consegue extrair. São dois números diferentes e o segundo é sempre maior.
E agora juntem a isto a entrada em bolsa. Uma empresa privada pode ter uma fase generosa. Uma empresa cotada tem um trimestre a seguir ao outro, para sempre, e acionistas que exigem que a margem cresça. Depois de Outubro, a pressão sobre o preço que vocês pagam passa a ter uma direção só. E o único contrapeso que existe nesse cenário é aquilo que agora se anda a tentar encarecer por via regulatória.
Não é só o preço de tabela, já agora. É tudo o que o preço de tabela disciplina: os limites de utilização, a qualidade do escalão gratuito, o aviso de noventa dias antes de descontinuarem o modelo em que construíram o vosso produto, a existência ou não de penalizações contratuais quando o serviço cai. Nada disto melhora numa indústria onde os concorrentes precisam de licença para existir.
A unica parte em que ele tem razão, e que não o desculpa
Não vou escrever isto a fingir que do outro lado só há cálculo.
O argumento da irreversibilidade é sólido: pesos publicados não se despublicam, e as salvaguardas de um modelo aberto removem-se com um fine-tune barato numa tarde. A preocupação com a assimetria entre atacante e defensor em biologia é séria e não se despacha com uma piada sobre lobbying. Se um modelo aberto puder um dia dar a alguém, num quarto, capacidade que antes exigia um Estado, isso é um problema real e eu não sou quem o vai resolver com um artigo de blog.
Mas um risco real também serve como alavanca. Aliás, os melhores instrumentos de captura regulatória da história foram sempre construídos em cima de riscos verdadeiros, porque riscos falsos não sobrevivem ao escrutínio. O teste não é se o perigo existe. É se a solução proposta distribui o custo de forma proporcional ao perigo, ou se o faz cair todo do lado dos concorrentes.
E há uma versão desta proposta que eu apoiava amanhã de manhã: limiares públicos e quantificados, revistos por uma entidade independente e não por comités onde os laboratórios decidem a altura da própria vedação; resultados dos testes publicados na íntegra, metodologia incluída, porque um teste cujo resultado eu não posso ler é marketing de bata branca; custo de conformidade proporcional à dimensão de quem o suporta; e simetria total, com os modelos fechados a passarem pelo mesmo escrutínio e a publicarem os mesmos resultados, sem exceção por serem servidos atrás de uma API.
Reparem que nada disto está no texto. O que está no texto são as três medidas que os concorrentes pagam.
Que sumo fazer disto?
Não vale a pena esperar que o regulador vos defenda, porque o regulador vai ouvir, durante os próximos dois anos, sobretudo quem tem departamentos de política pública em Washington e em Bruxelas. Vocês não têm.
Têm outra coisa, que é melhor: a capacidade de tornar a ameaça verdadeira. O teto de preço não existe por decreto, existe porque há gente a manter modelos abertos vivos, a usá-los, a corrigi-los, a pô-los em produção. Cada empresa portuguesa que passa uma carga de trabalho aborrecida para um modelo aberto na sua própria infraestrutura está, sem dar por isso, a defender o preço que paga pelo modelo fechado que continua a usar para o resto.
Façam a experiência este mês: peguem numa tarefa que hoje mandam para uma API, a classificação de e-mails, a extração de campos de faturas, a primeira versão de um texto, e ponham-na a correr numa máquina vossa durante trinta dias. Não é marretar. É construir a vossa própria alternativa antes de precisarem dela na mesa de negociação.
Porque a pergunta com que fico não é se o Dario Amodei acredita naquilo que escreveu. Provavelmente acredita. A pergunta é por que raio é que as convicções sinceras de um homem coincidem, com esta precisão toda, com a linha de defesa da avaliação da empresa dele.
Eu, quando vejo uma coincidência tão perfeita, deixo de lhe chamar coincidência.
Abraço Nuno
Disclamer final: Este post foi escrito com auxilio e pesquisa feitos por um LLM privado de open-weights aberto.
