Olá a todos.
Quem me lê aqui há algum tempo já me ouviu dizer isto vezes sem conta, quase como uma reza antes de dormir: se é crítico, então tem redundância. Mesmo quando é SaaS. Sobretudo quando é SaaS. Escrevi-o no post da ração de chocolate, quando a Anthropic decidiu reembrulhar aquilo que já estava incluído na vossa subscrição e vender-vos a mesma coisa outra vez com um laço. Escrevi-o quando vos contei como montar o vosso próprio Element em casa para não terem o Departamento de Justiça americano a ler as vossas conversas. Escrevi-o no OpenMythos, escrevi-o nos posts sobre o LiteLLM, escrevi-o até a propósito de extensões do VS Code envenenadas.
E ontem, dia 12 de Junho de 2026, o universo decidiu fazer-me o favor mais cínico de sempre: deu-me razão da pior maneira possível.
Sentem-se, que isto é importante.
O que aconteceu, em português claro
A Anthropic publicou uma declaração curta, daquelas escritas à pressa por uma equipa de comunicação que claramente preferia estar a fazer qualquer outra coisa. O resumo é este: o governo dos Estados Unidos, invocando autoridade de segurança nacional, emitiu uma diretiva de controlo de exportação a ordenar a suspensão de todo o acesso ao Fable 5 e ao Mythos 5 por qualquer cidadão estrangeiro, esteja ele dentro ou fora dos Estados Unidos. E quando digo qualquer estrangeiro, é mesmo qualquer estrangeiro. Incluindo os próprios funcionários da Anthropic que não são cidadãos americanos.
O efeito prático, porque uma plataforma global não consegue fazer um filtro cirúrgico de nacionalidades de um momento para o outro sem partir tudo, foi este: a Anthropic teve de desligar o Fable 5 e o Mythos 5 para todos os clientes. Todos. Os americanos também. Os outros modelos continuam a funcionar, mas estes dois, os topos de gama da casa, foram às escuras.
E reparem no detalhe que me arrepiou: a Anthropic diz que recebeu a carta às 5 e 21 da tarde, hora da costa leste. Não receberam um aviso prévio educado de trinta dias como no episódio da ração de chocolate. Receberam uma carta a meio da tarde e tiveram de cumprir. Cumprir já. A carta nem sequer detalhava qual era a tal preocupação de segurança nacional.
Pela leitura da própria Anthropic, o governo terá ficado convencido de que existe um método para fazer jailbreak ao Fable 5. A Anthropic diz que reviu a demonstração da tal técnica, que ela serviu apenas para encontrar um punhado de vulnerabilidades menores e já conhecidas, e que qualquer modelo público disponível por aí consegue encontrar exatamente as mesmas coisas sem precisar de truque nenhum. A empresa garante que o único indício concreto que lhe deram foi verbal, e que se resume a pedir ao modelo para ler uma base de código e corrigir as falhas que encontrar. Que, traduzindo, é literalmente o que milhares de programadores defensivos fazem todos os dias para manter os sistemas seguros, e algo que o GPT-5.5 da OpenAI faz sem despentear.
A Anthropic está a cumprir. Diz que discorda, que considera isto um mal-entendido, que acha desproporcional recolher do mercado um modelo usado por centenas de milhões de pessoas por causa de um jailbreak estreito e não confirmado, e que está a trabalhar para repor o acesso o mais depressa possível. Eu até acredito neles. Provavelmente têm razão na disputa técnica.
Mas, meus amigos, a disputa técnica é a parte menos interessante desta história. A parte interessante é a única que realmente nos diz respeito a nós, os tais cidadãos estrangeiros que ficaram do lado de fora da porta sem terem feito absolutamente nada.
Isto não é um corte de preços. Isto é um interruptor.
No post da ração de chocolate eu avisei que a Anthropic, como qualquer empresa, ia sempre decidir no interesse dela e não no vosso. Estava certo, mas era ingénuo. Porque o que ontem ficou demonstrado, à frente de toda a gente, é que existe uma camada acima da Anthropic. Existe uma entidade que pode passar por cima da empresa, por cima do contrato que vocês assinaram, por cima da fatura que vocês pagaram religiosamente, e desligar o produto. Sem aviso. Sem explicação detalhada. Num fim de tarde de quinta-feira.
Durante anos, sempre que escrevi sobre isto, alguém aparecia nos comentários a chamar-me catastrofista. “O kill switch é uma fantasia de gente que vê demasiados filmes.” “Isso nunca vai acontecer com fornecedores sérios.” “Estás a ser paranóico, Nuno.”
Pois bem. Ontem o kill switch deixou de ser uma metáfora de blog e passou a ser um facto documentado, com data e hora, publicado pela própria empresa afetada. Não fui eu que inventei. Foi a Anthropic que escreveu, preto no branco, que um governo carregou no botão e ela teve de obedecer.
E não foi um botão qualquer. Foi um botão accionado contra uma categoria de pessoas definida não pelo que fizeram, mas por aquilo que são. Estrangeiros. Vocês. Eu. Toda a gente deste lado do Atlântico.
A Europa é, por definição, o estrangeiro nesta história
Quero que parem e leiam outra vez a parte mais importante da diretiva. O acesso foi suspenso para qualquer cidadão estrangeiro, dentro ou fora dos Estados Unidos. Se estão a ler isto em Lisboa, no Porto, em Madrid, em Berlim ou em Paris, vocês são, na linguagem fria deste documento, o cidadão estrangeiro. Vocês são exatamente a categoria que o botão desligou.
Não interessa que a vossa empresa seja exemplar. Não interessa que paguem o plano mais caro. Não interessa que nunca tenham feito jailbreak nenhum, que cumpram o RGPD à risca, que tenham um DPO impecável e auditorias anuais. Quando uma entidade do outro lado do oceano, que vocês não elegeram, à qual não podem fazer lobby, e junto da qual não têm absolutamente nenhum recurso legal, decide que os estrangeiros não acedem, vocês não acedem. Fim. Ponto final.
E o mais delicioso de tudo, no sentido mais amargo da palavra, é que nem sequer foi a Anthropic a tomar a decisão. A empresa em quem vocês confiaram, com quem vocês têm contrato, a quem vocês pagam, foi reduzida a mera executora de uma ordem que recebeu a meio da tarde. A Anthropic, neste enredo, não é o senhorio. É o porteiro a quem mandaram trancar a porta. O senhorio é outro, mora noutro continente, e nunca vos vai atender o telefone.
Isto é a soberania tecnológica explicada num único acontecimento. Não é um conceito abstrato para conferências chatas de Bruxelas com painéis cheios de gente a dizer “ecossistema” e “sinergia”. É isto. É acordar e descobrir que a ferramenta de que a vossa operação depende foi desligada por um país que não é o vosso, por razões que não vos dizem respeito, num processo onde vocês não têm voz, voto, nem direito a réplica.
O padrão que eu descrevi, agora com esteróides
Lembram-se de quando vos falei do padrão clássico de lock-in? Funcionalidade barata ou incluída, adoção massiva, dependência, e depois aperto. Esse continua a ser o playbook comercial, e continua a ser verdade.
Mas o que vimos ontem é uma camada nova e muito mais perigosa por cima desse padrão. Não é o fornecedor a apertar a margem. É o Estado onde o fornecedor está sediado a usar a infraestrutura privada como uma alavanca de política externa. Já tínhamos visto isto noutros sítios. Vimos com o CLOUD Act, que dá às autoridades americanas acesso a dados guardados por empresas americanas mesmo quando esses dados estão fisicamente na Europa. Vimos com sanções a empresas inteiras que ficaram sem acesso a software e atualizações de um dia para o outro. Vimos com controlos de exportação de chips. Foi por isto que escrevi a saga do Element e do Departamento de Justiça. O fio condutor é sempre o mesmo: quando a infraestrutura é deles, a alavanca é deles.
A diferença é que a inteligência artificial subiu a aposta a um nível que nunca tínhamos visto. Quando vocês integram um modelo de fronteira nos vossos produtos, nos vossos processos, nos vossos pipelines de desenvolvimento, vocês não estão a ligar uma peça substituível. Estão a entregar o cérebro da operação a um inquilino que pode ser despejado por ordem de um governo estrangeiro a qualquer momento. E quando esse despejo acontece, não há migração suave possível, porque o serviço simplesmente deixa de responder.
Vamos ser justos com a Anthropic, porque eu não sou fanboy de ninguém
Não quero que isto soe a caça às bruxas contra a Anthropic, porque não é. Sejamos honestos sobre vários pontos, até porque de todos os frontiers, a Anthropic para mim tem os melhores modelos.
Primeiro, a Anthropic comportou-se com transparência. Em vez de apagar tudo às escondidas e mandar um email vago a falar de “manutenção não planeada”, publicou uma declaração a explicar o que se passou e a assumir publicamente que discorda da decisão do próprio governo do país onde está sediada. Isto, num clima onde discordar do governo tem custos, tem mérito e merece ser reconhecido.
Segundo, a posição técnica deles parece sólida. Se realmente o único indício é pedir ao modelo para corrigir falhas numa base de código, e se isso é capacidade banal disponível em modelos da concorrência, então a recolha é mesmo desproporcional, e a Anthropic tem todo o direito de o dizer.
Terceiro, e isto é o que mais me incomoda na minha própria argumentação, a Anthropic tem sido das poucas empresas a defender publicamente que devia existir um processo estatutário transparente, justo e baseado em factos técnicos para um governo poder bloquear deployments inseguros. Ou seja, eles próprios concordam que o Estado deve poder carregar no botão em certas circunstâncias. O que eles dizem é que este caso concreto não seguiu nenhum desses princípios de transparência e justiça. E ironicamente é precisamente por concordarem com a existência do botão que o botão acabou de lhes explodir nas mãos.
Tudo isto é verdade. E nada disto, absolutamente nada, muda a única conclusão que vos interessa: a vossa continuidade operacional não pode depender de uma disputa entre uma empresa e um governo, ambos do outro lado do mundo, na qual vocês são apenas a vítima colateral que paga a fatura. Podem ter toda a razão na disputa e mesmo assim ficarem sem serviço durante dias, semanas, ou para sempre. Ter razão não liga o servidor de volta.
A pergunta que a Europa se recusa a fazer
Aqui chegados, a pergunta óbvia é: e nós, o que temos? E a resposta envergonhada é: muito pouco, e o pouco que temos andamos a tratar com um desdém quase suicida.
Temos a Mistral, que é europeia, francesa, e que faz modelos genuinamente competentes e com pesos abertos que podem correr na vossa própria infraestrutura. Temos supercomputadores públicos de craveira mundial financiados pela própria União, o LUMI na Finlândia, o Leonardo em Itália, o JUPITER na Alemanha já na casa do exaescala. Temos projetos como o OpenEuroLLM a tentar construir modelos abertos nas línguas europeias. Temos o ecossistema todo de pesos abertos, o Qwen, o DeepSeek, o Llama, o Gemma, que correm onde vocês quiserem que eles corram, incluindo numa máquina que vocês controlam ao parafuso.
O problema nunca foi a falta de peças. O problema é que a Europa olha para estas peças como hobbies de entusiastas e olha para a infraestrutura americana como o sítio sério onde se faz negócio a sério. Continuamos a tratar a soberania tecnológica como uma despesa, um luxo de quem tem dinheiro a mais, quando ela é exatamente o oposto: é o seguro contra o dia em que alguém do outro lado do oceano decide, num fim de tarde, que nós somos o estrangeiro que não convém.
E não, não estou a dizer que cortem tudo com a Anthropic amanhã e vão viver para uma cave com vinte GPUs. Eu uso o Claude todos os dias e continuo a achá-lo dos melhores modelos que existem. O que estou a dizer é outra coisa, a mesma coisa de sempre, só que agora com um exemplo real e fresquinho a dar-me razão.
O que devem fazer agora, sem dramas e sem fanatismos
Primeiro, abstraiam o fornecedor. Já escrevi até à exaustão sobre o LiteLLM e sobre porque é que ele devia estar à frente de tudo o que vocês fazem com IA. O vosso código não pode saber se está a falar com o Claude, com o GPT, com um Mistral, ou com um modelo local. Tem de falar com um proxy, e o proxy é que decide. No dia em que um fornecedor cai, por preço, por capricho ou por ordem de um governo, o tráfego redireciona e vocês nem perdem o sono. Se ontem tivessem o Fable atrás de um LiteLLM com fallback configurado, este post seria sobre outra coisa qualquer.
Segundo, tenham sempre um modelo de pesos abertos pronto a entrar em campo. Não interessa que seja um bocadinho pior. O melhor modelo do mundo desligado vale zero. Um Qwen ou um DeepSeek razoável a correr no vosso hardware, ou num fornecedor europeu, vale infinitamente mais do que o melhor modelo de fronteira que pode evaporar a meio da tarde. Para a esmagadora maioria das tarefas do dia a dia, revisão de código, testes, documentação, triagem, classificação, os modelos abertos de hoje já chegam e sobram.
Terceiro, classifiquem o que é crítico e tratem-no como crítico. Se há um fluxo de negócio que morre quando a IA desaparece, esse fluxo não pode ter um único fornecedor estrangeiro como ponto de falha. Ponto. Façam o exercício chato de listar onde é que a IA já se enterrou na vossa operação. Vão assustar-se com a quantidade de sítios onde ela já está, silenciosamente, a ser indispensável.
Quarto, e este é para quem decide, não para quem programa: parem de tratar a soberania como tema de painel. Avaliem a sério fornecedores europeus. Avaliem a sério correr inferência em casa. Façam as contas, que muitas vezes até dão a vosso favor a partir do terceiro ou quarto mês. E percebam que o argumento “mas a qualidade não é a mesma” deixa de fazer qualquer sentido no dia em que a qualidade que vocês tanto defendem está do outro lado de uma porta trancada por um governo que não é o vosso.
Conclusão
No post da ração de chocolate eu disse que o erro não era da Anthropic por mudar os preços, era vosso se construíram tudo em cima de preços subsidiados sem um plano B. Mantenho cada palavra, mas hoje tenho de a atualizar.
O erro deixou de ser apenas confiar num preço. Passou a ser confiar que a ferramenta vai continuar a existir para vocês. Porque ontem ficou provado que ela pode desaparecer não por decisão da empresa que a faz, não por decisão vossa, mas por decisão de um país inteiro que olha para vocês e vê apenas, friamente, um estrangeiro a quem o acesso pode ser cortado.
Isto não é catastrofismo. É a manchete de ontem. E a parte verdadeiramente perturbadora não é o que aconteceu ao Fable e ao Mythos, que provavelmente até voltam dentro de dias. A parte perturbadora é que aconteceu uma vez, com naturalidade, com base legal, e a única coisa que separou a Europa de um apagão total na sua infraestrutura de IA foi o detalhe de terem desligado dois modelos e não todos.
Da próxima vez podem ser todos. E da próxima vez podem não nos contar de forma tão transparente.
Se é crítico, então tem redundância. Hoje a frase ganhou um peso que eu, sinceramente, preferia não ter visto confirmado.
Espero que tenham gostado do post, mesmo sabendo que não é dos mais alegres. Como sempre, se acharem algo fora do sítio ou que mereça reparo, já sabem onde me encontrar.
Um abraço.
Nuno
