Olá a todos.
Hoje o post é diferente. Não vou falar de tokens, de modelos de linguagem, de clusters on-prem ou de como a empresa X fez asneira com os termos de serviço. Hoje quero falar de algo que me toca pessoalmente e que, arrisco dizer, é mais importante do que qualquer tecnologia que eu já tenha discutido neste blog.
Quero falar de livros. De livros para crianças. E de como ler, ou melhor, de como ler com os nossos filhos é provavelmente a coisa mais transformadora que podemos fazer por eles.
E quero falar-vos de uma pessoa que faz um trabalho extraordinário nesta área, e que descobri (ou melhor, que me foi apresentada pela minha cara-metade, que nestas coisas tem sempre melhor faro do que eu) no Instagram: a Teresa, do @amaladateresa.

Quem é a Teresa e o que é “A Mala da Teresa”
A Teresa é professora bibliotecária e contadora de histórias. E antes que alguém pense “ah, mais uma conta de Instagram a recomendar livros”, parem. Leiam. Prestem atenção. Porque o que a Teresa faz vai muito para além de mostrar capas bonitas e fazer listas de bestsellers.
A bio dela diz: “Livros infantis que ficam no coração. Professora bibliotecária e contadora de histórias. Ideias de leitura para famílias.” E é exatamente isso. Mas é também muito mais.
Quando olhamos para a página da Teresa, vemos alguém que vive aquilo que faz. Não é uma influencer a fazer unboxings de livros para ganhar seguidores. É uma profissional da educação que genuinamente acredita e demonstra, post após post, vídeo após vídeo, que um livro na mão de uma criança pode mudar tudo. A forma como ela se senta a ler, como mostra os livros com aquele brilho nos olhos, como explica o que se pode fazer depois de uma leitura, como envolve as famílias… isto não se finge. Isto é vocação.
Olhando para os conteúdos dela, encontramos de tudo: sugestões de leitura para o Dia da Mãe com livros como “Mãe da Cabeça aos Pés” e “Quando a Mãe Era Pequena”. Sessões de “Hora do Conto” na FNAC – abertas ao público, entrada livre – onde ela conta histórias como “Matilde e a Girafa” ou “Faça Chuva ou Faça Sol”. Vídeos sobre o que acontece antes das sessões dela (e acreditem, há muito trabalho por trás de cada sessão que parece “só” uma senhora a ler um livro). Conteúdo sobre o 25 de Abril explicado às crianças através de livros como “Era Uma Vez Um Cravo” e “Sempre!”, porque sim, também se pode falar de liberdade e democracia com os mais pequenos. O Dia Mundial do Livro. O Dia Mundial da Língua Portuguesa. Sugestões de livros de autores portugueses e de língua portuguesa. Atividades pós-leitura, porque um livro não acaba quando se fecha a última página.
E depois há os vídeos onde ela simplesmente partilha a paixão. “Ainda estou sem palavras…” depois de visitar a feira do livro. “Lá fui eu outra vez…” a comprar mais livros. “A preparar…” a próxima sessão. Há uma autenticidade nisto que, num mundo de conteúdo fabricado e optimizado para algoritmos, é uma lufada de ar fresco.
Mas espera Nuno, tu és um gajo de tecnologia, o que é que sabes de livros para crianças?
Sei o que qualquer pai sabe quando se senta com o filho ao colo e abre um livro. Sei o que acontece quando uma criança de três anos pede “outra vez!” pela quinta vez consecutiva, e nós lemos outra vez, porque aquele brilho nos olhos dela vale mais do que qualquer hora de sono que vamos perder. Sei o que é ver uma criança a apontar para uma ilustração e dizer uma palavra que nunca tinha dito antes. Sei o que é perceber, meses depois, que a minha filha usou numa frase uma palavra que aprendeu num livro que lemos juntos numa noite qualquer de terça-feira.
E sei, porque li sobre o assunto e porque vivo o assunto, que a ciência é absolutamente clara nesta matéria.
O que diz a ciência, e porque é que devíamos prestar mais atenção
Vou ser direto, como costumo ser. A investigação em neurociência cognitiva é inequívoca: ler para crianças, e ler com crianças, desde os primeiros meses de vida, tem um impacto profundo e mensurável no desenvolvimento do cérebro.
Quando lemos para uma criança, não estamos “só” a contar uma história. Estamos a ativar redes neuronais que conectam a linguagem oral com o processamento visual. Estamos a forçar o cérebro a fazer algo que, ao contrário de andar ou falar, não é natural pois a leitura é uma competência aprendida, não inata. E quanto mais cedo começamos a estimular essas conexões, mais fortes e mais duradouras elas se tornam.
Investigadores na área demonstraram que a leitura partilhada – aquela que fazemos em família, com a criança ao colo ou sentada ao nosso lado – não desenvolve apenas vocabulário. Desenvolve capacidade de abstração. Imaginação. Criatividade. Empatia. Pensamento crítico. Teoria da mente – aquela capacidade extraordinária de nos colocarmos no lugar do outro, de percebermos que as outras pessoas têm pensamentos e sentimentos diferentes dos nossos.
Pensem nisto um segundo. Quando uma criança ouve uma história sobre um personagem que está triste porque perdeu o seu brinquedo favorito, essa criança está a fazer um exercício mental extraordinariamente complexo: está a imaginar uma situação que não é a dela, a sentir uma emoção que não é a dela, a processar uma perspetiva que não é a dela. Está, literalmente, a treinar o cérebro para a empatia. E isto acontece cada vez que abrimos um livro.
Há estudos que mostram que crianças, adolescentes e até adultos que leem com frequência apresentam menos impacto de quadros como depressão, problemas cognitivos e dificuldades socioemocionais. A leitura funciona como uma espécie de proteção que não é magia, é neurociência. Um cérebro que lê regularmente é um cérebro mais resiliente, mais flexível, mais capaz de lidar com a complexidade do mundo.
E sabem o que é mais bonito em tudo isto? Não precisa de ser complicado. Não precisa de método, de app, de subscrição, de tecnologia. Precisa de um livro, de um adulto e de uma criança. Só isso.
A leitura e a construção do “eu” e porque é que os livros ajudam as crianças a perceberem quem são
Este é um ponto que me fascina particularmente e sobre o qual não se fala o suficiente. Os livros não servem apenas para aprender palavras ou para desenvolver o cérebro num sentido técnico. Os livros são espelhos e janelas.
São espelhos quando uma criança se revê num personagem. Quando lê sobre um miúdo que tem medo do escuro e pensa “eu também tenho medo do escuro, então não sou o único”.
Quando encontra num livro uma família que se parece com a dela, ou que não se parece nada com a dela, e percebe que há muitas formas de ser família. Quando o protagonista é tímido, ou desastrado, ou diferente, e mesmo assim é o herói da história.
E são janelas quando mostram mundos que a criança nunca viu. Culturas diferentes. Geografias diferentes. Épocas diferentes. Formas de viver e de pensar que estão fora do universo imediato dela. E é por aqui que a imaginação explode porque quando uma criança percebe que o mundo é muito maior do que a sala de estar ou o pátio da escola, começa a imaginar o que mais pode existir. E imaginar é o primeiro passo para criar. Para inventar. Para inovar.
Há uma razão pela qual a Teresa faz questão de recomendar livros de autores de língua portuguesa, livros que falam do 25 de Abril, livros que tocam em temas como a família, a identidade, a liberdade. Porque os livros que damos às crianças não são neutros. São escolhas. São mensagens. São sementes. E o que plantamos nos primeiros anos vai definir muito do que cresce depois.
Uma criança que cresce rodeada de livros é uma criança que cresce a saber que as respostas nem sempre são simples, que as pessoas são complexas, que o mundo tem muitas camadas. É uma criança que vai ter mais ferramentas para lidar com a frustração, com a diferença, com o desconhecido. Não porque os livros são manuais de instruções para a vida mas porque são muito melhor do que isso. São simuladores de realidade. Cada história é um cenário que o cérebro processa como se fosse real, e cada cenário processado é mais uma ferramenta na caixa.
A imaginação não é um luxo. É uma das nossas maiores necessidades
Vivemos numa era em que há uma tendência preocupante para desvalorizar o que não é imediatamente “produtivo” ou “mensurável”. E a imaginação, coitada, é muitas vezes tratada como uma coisa de criança que eventualmente se deve ultrapassar para dar lugar a coisas “sérias”.
Isto é, com todo o respeito, uma estupidez monumental.
A imaginação é a base de tudo. De toda a ciência, de toda a tecnologia, de toda a arte, de toda a inovação. Antes de alguém construir um avião, alguém imaginou que era possível voar. Antes de alguém escrever um algoritmo, alguém imaginou que uma máquina podia fazer cálculos. A imaginação não é o oposto da racionalidade, é o combustível fundamental dela.
E sabem onde é que se treina a imaginação? Nos livros. Nas histórias. No momento em que uma criança ouve “Era uma vez…” e o cérebro dela acende como uma árvore de Natal, a construir cenários, a visualizar personagens, a preencher os espaços entre as palavras com mundos inteiros que mais ninguém vê.
Quando a Teresa se senta a contar uma história a um grupo de crianças – e quem já viu os vídeos dela sabe do que estou a falar – o que está a acontecer é muito mais do que entretenimento. Está a acontecer construção. Construção de cérebros mais capazes, mais criativos, mais preparados para um mundo que, sejamos honestos, vai ser muito mais complexo do que o nosso.
O papel das famílias e porque é que “não tenho tempo” não é desculpa
Vou ser frontal, porque é assim que funciono. Se és pai ou mãe e não lês com os teus filhos, estás a perder uma das melhores oportunidades que tens para te conectares com eles e, ao mesmo tempo, para lhes dares ferramentas que nenhuma escola, por melhor que seja, consegue dar sozinha.
Sim, eu sei. O dia tem 24 horas. Trabalhas. Estás cansado. Quando chegas a casa só queres deitar-te no sofá e ver qualquer coisa no telemóvel enquanto os miúdos veem uns desenhos animados no tablet. Eu sei porque eu também estou lá. Todos os dias. A tentação é real.
Mas ler com uma criança não precisa de uma hora. Não precisa de trinta minutos. Dez minutos. Antes de dormir. Um livro pequeno. Uma história curta. E se o miúdo pedir “outra vez!”, leiam outra vez. Porque cada “outra vez” é o cérebro dele a dizer “isto é bom, quero mais, estou a aprender, estou a crescer.”
E é aqui que páginas como a da Teresa são tão valiosas. Porque uma das maiores barreiras que os pais enfrentam não é falta de vontade: é falta de orientação. “Que livros é que compro?” “O que é que é adequado para a idade do meu filho?” “O meu filho de quatro anos vai perceber este livro?” “E depois de ler, faço o quê?”
A Teresa responde a tudo isto. Post após post, vídeo após vídeo, sugestão após sugestão. Ela mostra livros concretos, fala deles com conhecimento e paixão, explica para que idades são, o que se pode trabalhar a partir deles, que atividades se podem fazer depois. É como ter uma professora bibliotecária ali no bolso, pronta a ajudar sempre que precisamos de uma ideia. E é gratuito. Basta seguir e prestar atenção.
As sugestões da Teresa que me ficaram no radar
Não sendo eu especialista em literatura infantil – sou um pai que leu com os filhos e que ainda hoje tenta fazer o melhor que pode – há várias coisas na página da Teresa que me chamaram a atenção pela forma como ela as apresenta.
A forma como abordou o 25 de Abril é particularmente inteligente. Livros como “Era Uma Vez Um Cravo”, “Sempre!” e “História de uma Flor” são formas de falar de liberdade e de democracia com crianças, sem ser panfletário, sem ser pesado, sem transformar a leitura numa aula de história. É dar-lhes contexto. É explicar-lhes de onde vêm. É ajudá-los a perceber que os direitos que têm não caíram do céu.
As sugestões para o Dia da Mãe – “Mãe da Cabeça aos Pés”, “Quando a Mãe Era Pequena”, “Mamã!” – mostram livros que celebram relações reais, com imperfeições e com humor, em vez daquela visão açucarada e artificial que às vezes vemos.
Os livros sobre família, como “A Estranha Família”, abrem portas para conversas sobre o que é família, sobre como as famílias são todas diferentes e todas válidas.
E depois há a “Hora do Conto” – aquelas sessões presenciais que a Teresa faz, por exemplo na FNAC, de entrada livre. Isto é ouro para quem vive em Lisboa e tem crianças pequenas. Levar uma criança a ouvir alguém contar uma história ao vivo, com toda a expressividade, com toda a magia que isso envolve, é uma experiência que vale por mil horas de ecrã.
A Teresa também tem um cuidado particular em recomendar autores de língua portuguesa, o que para mim é fundamental. Não tenho nada contra os clássicos internacionais, mas há uma riqueza enorme na literatura infantil em português que muitas vezes passa despercebida. E quando uma criança lê um livro na sua língua, escrito por alguém da sua cultura, sobre realidades que reconhece, a ligação é diferente. É mais íntima. É mais “dela.”
A metáfora que me faz sentido
Quem me lê regularmente sabe que gosto de analogias com o mundo da tecnologia, por deformação profissional. Então aqui vai uma.
Pensem no cérebro de uma criança como um servidor que acabou de ser montado. Está lá o hardware: é bom, é potente, está pronto. Mas precisa de software. Precisa de dados. Precisa de estímulos para configurar as redes, para otimizar os processos, para construir os caminhos que vão definir como funciona para o resto da vida.
Os livros são o melhor software que podemos instalar nesse servidor. São open source e qualquer pessoa pode aceder. Não têm DRM emocional. Não expiram, não precisam de subscrição, não mudam os termos de serviço a meio. Não fazem tracking. Não vendem dados. Não precisam de bateria. E, mais importante, não há nenhuma empresa que de um dia para o outro possa decidir que o livro que compraram já não funciona.
Um livro é soberano. Um livro é vosso. E o que ele planta no cérebro de uma criança, ninguém tira.
Em jeito de conclusão
Sei que este post é diferente do habitual. Sei que quem me segue espera posts sobre segurança informática, sobre modelos de IA, sobre como o fornecedor X fez mais uma asneira. E isso vai continuar, não se preocupem. Mas de vez em quando preciso de parar e falar sobre as coisas que realmente importam.
E poucas coisas importam mais do que o que estamos a construir dentro da cabeça dos nossos filhos.
A Teresa, com a sua Mala cheia de livros e de histórias, está a fazer um trabalho que deveria ter muito mais visibilidade do que tem. Com 251 seguidores no Instagram (à data em que escrevo isto), ela merecia ter 25.000. Ou 250.000. Porque o que ela faz com muita autenticidade, com muito conhecimento e com muita paixão é um serviço público. É ajudar famílias a descobrir livros que vão ficar no coração dos seus filhos. E um livro que fica no coração de uma criança é uma semente que vai dar frutos durante toda a vida.
Se são pais, avós, tios, padrinhos, educadores, professores sigam a Teresa. @amaladateresa no Instagram. Vejam as sugestões dela. Levem os miúdos às sessões de Hora do Conto. Comprem os livros que ela recomenda. Leiam-nos com os vossos filhos. E quando eles pedirem “outra vez!”, leiam outra vez.
Porque no final do dia, quando toda a tecnologia se desligar, quando os ecrãs se apagarem e o Wi-Fi falhar, o que fica é o que construímos uns com os outros. E um livro lido com um filho ao colo é uma coisa que fica. Para sempre.
Espero que tenham gostado do post de hoje. Como sempre, se acharem algo fora do sítio, ou que denote reparo, já sabem onde me encontrar.
Um abraço.
Nuno