Smartphones deGoogled Europeus: Porque a Escolha do Vosso Telefone é uma Questão de Privacidade e Soberania Digital

Olá a todos!

Se há coisa que me tem deixado cada vez mais preocupado é ver como muitos de nós – mesmo aqueles que se preocupam com privacidade e segurança – continuam a entregar os nossos dados mais pessoais e a nossa vida digital nas mãos de gigantes americanos sem sequer questionar. E não, não estou a falar apenas de apps. Estou a falar do próprio dispositivo que trazem no bolso todos os dias, do sistema operativo que corre nele, e de todas as dependências que isso cria.

Recentemente deparei-me com um artigo da Tuta sobre smartphones deGoogled (e que o mesmo pode ser dito sobre iOS) feitos na Europa, e isso fez-me pensar: porque é que continuamos a aceitar que a nossa privacidade, a nossa segurança, e até a nossa soberania digital dependam de empresas sediadas numa jurisdição que não é a nossa, que têm objectivos que muitas vezes não se alinham com os nossos valores europeus?

Hoje vou falar-vos sobre uma alternativa concreta: smartphones desenvolvidos e pensados na Europa, que nos permitem recuperar o controlo sobre os nossos dados e reduzir drasticamente a nossa dependência do ecossistema Google. E sim, isto tem tudo a ver com soberania digital europeia.

O problema que ninguém queria enfrentar.

Vamos ser honestos: quantos de vocês sabem exactamente o que o vosso smartphone Android/Apple está a fazer em background? Quantos dados está a enviar para servidores do Google?  E para a Apple? Que permissões têm as apps que instalam das app stores? E sobretudo: porque é que achamos normal que o dispositivo mais pessoal que temos esteja completamente dependente de uma empresa americana?

O Android, tal como o conhecemos nos nossos Pixel ou Samsung, é controlado pelo Google. Sim, é baseado em código aberto (AOSP), mas a versão que corre na maioria dos telefones está repleta de serviços proprietários da Google: Google Play Services, Google Play Store, e toda uma infraestrutura de tracking e telemetria que está constantemente a recolher dados sobre a vossa localização, apps usadas, padrões de comportamento, contactos, emails… a lista é interminável.
O mesmo se pode dizer de uma forma ainda mais preocupante sobre o ecossistema iOS. Sendo uma plataforma fechada, está barrada qualquer tipo ou tentativa de auditoria ao código, seja por temas de segurança, seja por temas privacidade.

E aqui está o verdadeiro problema: isto não é apenas uma questão de privacidade individual. É uma questão de soberania digital colectiva. Quando toda a Europa depende de infraestrutura controlada por empresas americanas, estamos a criar uma vulnerabilidade geopolítica enorme. Estamos a entregar não só os nossos dados pessoais, mas dados de empresas, de governos, de infraestrutura crítica, a entidades que operam sob leis que não são as nossas e que podem ser obrigadas a partilhar informação com agências de inteligência americanas.

Perguntam-me com frequência: “Mas Nuno, eu não tenho nada a esconder”. E eu respondo sempre o mesmo: não é sobre ter algo a esconder. É sobre ter o direito à privacidade, sobre não dar a terceiros o poder de controlar a vossa vida digital, e sobre não tornar a Europa digitalmente dependente de potências externas.

A alternativa existe: smartphones europeus degoogled

A boa notícia é que existem alternativas concretas, desenvolvidas e pensadas aqui na Europa, que nos permitem usar um smartphone moderno e funcional sem depender do Google. E não estou a falar de projetos experimentais ou de nicho. Estou a falar de dispositivos prontos a usar, com suporte comercial, e que podem perfeitamente substituir o vosso Pixel ou Samsung.

Vou falar-vos de cinco fabricantes europeus que estão a fazer isto bem: Volla (Alemanha), Fairphone (Holanda), SHIFTphone (Alemanha), Punkt (Suíça), e Murena (França). Cada um tem a sua abordagem, mas todos partilham o mesmo objectivo: dar-vos um smartphone que respeita a vossa privacidade e não vos torna dependentes do ecossistema Google.

Volla Phone Quintus: Segurança e Minimalismo Alemão

O Volla Quintus é provavelmente o que mais me impressiona em termos de abordagem à segurança. Desenvolvido e parcialmente fabricado na Alemanha (os passos finais de produção acontecem em Remscheid), este telefone corre o Volla OS, um sistema baseado em AOSP mas completamente livre de dependências do Google.

E aqui está a parte interessante: se precisarem mesmo de algumas apps que dependem dos Google Play Services, podem ativar o microG, uma implementação open source que fornece essas APIs sem enviar dados para o Google. É uma solução de compromisso inteligente para quem ainda não está pronto para cortar completamente com Google, mas quer minimizar drasticamente a quantidade de dados partilhados.

O Volla OS tem um foco especial em encriptação e privacidade. Tem um modo de segurança único que encripta dados sensíveis de forma transparente, e a interface é minimalista e focada em reduzir distrações. Para quem valoriza produtividade e privacidade, é uma escolha excelente.

E há ainda outra opção fascinante: podem usar Ubuntu Touch, transformando o Quintus num verdadeiro dispositivo Linux mobile. Ou melhor ainda: podem ter dual boot e escolher entre Volla OS e Ubuntu Touch conforme a necessidade. Isto é liberdade de verdade.

Preço: €719 (com 10% de desconto usando o código VOLLA10)

Fairphone 6: Sustentabilidade e Longevidade Holandesa

O Fairphone é provavelmente o mais conhecido destes fabricantes, e com razão. A empresa holandesa tem um foco forte em sustentabilidade, reparabilidade e longevidade. O Fairphone 6 é modular, com peças facilmente substituíveis, e a empresa compromete-se a fornecer atualizações durante muitos anos.

E aqui está a parte que nos interessa: podem comprar o Fairphone 6 com /e/OS pré-instalado. O /e/OS é um Android deGoogled baseado em LineageOS, que vem com a App Lounge – uma loja de apps alternativa que agrega apps do F-Droid e até apps da Google Play, mas sem enviar dados para o Google.

A grande vantagem do Fairphone é a flexibilidade. Se descobrirem que viver sem Google é demasiado complicado (spoiler: não é), podem tecnicamente voltar a instalar o Android com Google. Embora isto exija conhecimentos técnicos, a opção existe. Mas garanto-vos: uma vez que experimentarem um smartphone sem Google a espiar tudo o que fazem, não vão querer voltar atrás.

Preço: €649

SHIFTphone: Modularidade e Transparência Alemã

O SHIFTphone 8.1 é outro projeto alemão fascinante. Tal como o Fairphone, tem um foco forte em modularidade e reparabilidade. A bateria é removível (lembram-se quando todos os telefones tinham isto?), e os componentes são projetados para serem substituídos facilmente.

Mas o que me agrada particularmente no SHIFT é a transparência sobre a produção. A empresa é muito clara sobre onde e como os seus dispositivos são fabricados, mesmo que a produção aconteça na China. Há um compromisso real com condições de trabalho justas e rastreabilidade de componentes.

O SHIFTphone pode correr ShiftOS-G (com Google), ShiftOS-L (levemente deGoogled, sem apps Google mas com F-Droid), ou /e/OS para uma experiência completamente livre de Google. E tem ainda uma funcionalidade que adoro: hardware kill switches para a câmara e microfone. Quando os desligam fisicamente, não há software que os possa ativar. Isto é privacidade a sério.

Preço: €651

Punkt MC02: Simplicidade e Privacidade Suíça

O Punkt é diferente dos anteriores. É um dispositivo focado em simplicidade e privacidade acima de tudo. Corre o Apostrophy OS, um fork do Android focado em privacidade, completamente livre de Google por padrão.

O MC02 não tenta ser o telefone mais potente ou com mais features. Tenta ser o telefone mais respeitador da vossa privacidade, com defaults sólidos e um conjunto curado de apps. Para quem quer um dispositivo que simplesmente funciona, sem tentações de passar horas em redes sociais ou a ser bombardeado com notificações, o Punkt é uma escolha interessante.

Preço: €499

Murena: O Ecossistema /e/OS Francês

A Murena, sediada em França, não fabrica telefones propriamente ditos. Em vez disso, é a empresa por detrás do /e/OS e vende vários dos smartphones que mencionei acima com /e/OS pré-instalado. A sua App Lounge é, segundo eles, “a experiência mais integrada de deGoogle disponível na Europa”.

Se não querem ter o trabalho de instalar um sistema operativo alternativo vós próprios, comprar através da Murena é uma opção conveniente para ter um smartphone completamente configurado e pronto a usar sem Google.

A questão da soberania digital europeia

Agora, vamos falar da dor na alma: porque é que isto importa do ponto de vista geopolítico?

A Europa está a despertar lentamente para o facto de que a nossa dependência de infraestrutura digital americana é um problema sério. Quando todos os nossos dados passam por servidores controlados por empresas sob jurisdição americana, estamos vulneráveis não só a surveillance comercial, mas também a surveillance governamental através de leis como o CLOUD Act.

O CLOUD Act permite ao governo americano exigir dados de empresas americanas, independentemente de onde esses dados estejam armazenados fisicamente. Isto significa que os vossos emails no Gmail, as vossas fotos no Google Photos, os vossos documentos no Google Drive – tudo isto pode ser acedido pelas autoridades americanas sem que vocês sequer saibam.

E não é apenas uma questão de governo. É uma questão de competição comercial. Quando empresas europeias dependem completamente de infraestrutura controlada por empresas americanas, estamos a dar às nossas próprias empresas uma desvantagem competitiva estrutural. Estamos a financiar os nossos concorrentes.

Usar smartphones desenvolvidos e pensados na Europa, com sistemas operativos que não dependem de serviços americanos, é um pequeno mas importante passo em direção a maior autonomia digital europeia. E sim, isto aplica-se também a empresas e organizações públicas. Quantas autarquias, hospitais, escolas em Portugal estão a usar infraestrutura digital completamente dependente de empresas americanas? Demasiadas.

A realidade prática: Será que funciona mesmo?

Sei que muitos de vocês estão a pensar: “Ok Nuno, isto tudo soa bem na teoria, mas na prática, consigo realmente usar um smartphone deGoogled (ou deiOS) no dia-a-dia?”

A resposta curta: sim, na maioria dos casos.
A resposta longa: depende das vossas apps e necessidades específicas. Deixem-me ser completamente transparente sobre as limitações:

Apps que vão funcionar perfeitamente:

  • Apps open source do F-Droid (incluindo o Tuta Mail, que uso todos os dias)
  • Navegadores como Firefox
  • Apps de mensagens como Signal
  • A maioria das apps de produtividade
  • Apps que não dependem fortemente dos Google Play Services

Apps que podem ter limitações:

  • Apps bancárias (algumas funcionam, outras não; depende de como foram desenvolvidas)
  • Apps que usam Google Maps para localização
  • Apps que dependem de notificações push através do Firebase Cloud Messaging do Google
  • Algumas apps que verificam a integridade do Google Play

Apps que definitivamente não vão funcionar:

  • Apps que exigem explicitamente Google Play Services e não têm alternativa
  • Alguns jogos mobile que dependem de Google Play Games
  • Google Pay (obviamente)

Mas aqui está a questão: para a maioria das funcionalidades, existem alternativas. Para mapas, podem usar o OpenStreetMap através do OsmAnd ou Organic Maps. Para email, em vez do Gmail, usem o Tuta Mail ou ProtonMail. Para armazenamento cloud, em vez do Google Drive, usem Nextcloud self-hosted ou serviços europeus.
E quanto às apps bancárias, cada vez mais bancos estão a fazer as suas apps funcionarem em dispositivos deGoogled. Mas mesmo que a app do vosso banco não funcione, podem sempre aceder através do browser. Sim, é menos conveniente, mas é um preço pequeno a pagar por privacidade real.

Como começar (Sem ser demasiado radical)

Se estão interessados mas têm medo de dar o salto completo, deixem-me dar-vos uma estratégia gradual:

Fase 1: Testar as águas Comecem por usar apps alternativas no vosso telefone Android atual. Instalem o F-Droid, experimentem o Tuta Mail em vez do Gmail, o Signal em vez do WhatsApp, o Firefox em vez do Chrome. Vejam se conseguem viver sem as apps do Google no dia-a-dia.

Fase 2: Considerar um segundo dispositivo Se a Fase 1 correu bem, considerem comprar um smartphone deGoogled como dispositivo secundário. Usem-no para tudo excepto as apps que absolutamente precisam do Google. Isto dá-vos tempo para vos adaptarem sem stress.

Fase 3: Fazer a transição completa Quando se sentirem confortáveis, façam do dispositivo deGoogled o vosso telefone principal. Para as poucas apps que ainda precisam do Google (se houver), podem manter o dispositivo antigo apenas para essas situações específicas.

Para os mais aventureiros: Se têm conhecimentos técnicos e um Pixel, experimentem o GrapheneOS. É um sistema operativo Android focado em segurança e privacidade que corre em Pixels. Embora não seja um dispositivo europeu (ainda estão a pagar ao Google pelo hardware), é uma forma excelente de aprender sobre segurança mobile e privacidade.

A minha recomendação

Se chegaram até aqui, já sabem qual vai ser a minha recomendação. Se se preocupam com privacidade, segurança, e soberania digital europeia, deviam seriamente considerar um smartphone deGoogled na próxima vez que precisarem de um novo dispositivo.
Para a maioria de vocês, recomendo o Fairphone 6 ou o Volla Quintus. O Fairphone pela sua reparabilidade e suporte a longo prazo, o Volla pela sua abordagem focada em segurança e pela opção de dual boot com Ubuntu Touch.
Para empresas e organizações, especialmente aquelas com requisitos de compliance ou que trabalham com dados sensíveis, isto não é apenas recomendado – devia ser obrigatório. Não faz sentido implementar todas as medidas de segurança imagináveis se depois os vossos colaboradores estão a usar dispositivos que enviam telemetria constante para servidores americanos.
E para PMEs portuguesas, pensem nisto: usar smartphones europeus deGoogled pode ser um diferenciador comercial. Podem dizer aos vossos clientes que levam a privacidade e segurança dos dados deles tão a sério que até os dispositivos dos vossos colaboradores são escolhidos com esse critério. Isso gera confiança.

Recursos e próximos passos

Se querem explorar mais, aqui estão alguns recursos úteis:

Fabricantes:

  • Volla: volla.online
  • Fairphone: fairphone.com
  • SHIFTphone: shift.eco
  • Punkt: punkt.ch
  • Murena: murena.com

Sistemas Operativos Alternativos:

  • /e/OS: e.foundation
  • GrapheneOS: grapheneos.org
  • LineageOS: lineageos.org
  • Ubuntu Touch: ubuntu-touch.io

App Stores Alternativos:

  • F-Droid: f-droid.org (fundamental)
  • Aurora Store: auroraoss.com (front-end para Google Play sem conta Google)

E claro, se tiverem dúvidas ou experiências para partilhar sobre o uso de smartphones deGoogled, quero ouvir. A transição para maior autonomia digital é um esforço coletivo, e quanto mais partilharmos conhecimento, mais fácil se torna para todos.

Conclusão: É mais que privacidade, é soberania

Smartphones deGoogled europeus representam mais do que uma forma de proteger a vossa privacidade individual. Representam um passo em direção a maior autonomia digital europeia, uma forma de reduzir a nossa dependência de infraestrutura controlada por potências externas, e uma maneira de apoiar empresas europeias que estão a tentar fazer as coisas bem.
Sim, há um período de adaptação. Sim, algumas apps podem não funcionar. Mas para a vasta maioria de casos de uso, estes dispositivos são perfeitamente viáveis e até superiores em termos de privacidade e segurança.
E aqui está a verdade inconveniente: se nós, como indivíduos e como sociedade europeia, não começarmos a fazer escolhas conscientes sobre a nossa infraestrutura digital, vamos continuar a ser digitalmente dependentes e vulneráveis. Cada smartphone europeu deGoogled que é vendido, cada pessoa que faz a transição para soluções que respeitam a privacidade, cada empresa que decide levar a segurança a sério – tudo isto contribui para um ecossistema digital europeu mais forte e mais resiliente.
A escolha do vosso próximo smartphone não é apenas uma questão de preferir Android ou iOS, ou de escolher entre marcas. É uma escolha sobre que tipo de futuro digital queremos construir, sobre quantos dos nossos dados queremos partilhar com empresas estrangeiras, e sobre quão dependentes queremos ser de infraestrutura controlada fora da Europa.

Eu já fiz a minha escolha. E vocês?

Agora, vão lá explorar estes dispositivos, experimentar sistemas operativos alternativos, e começar a pensar seriamente sobre a vossa soberania digital. O vosso futuro digital está nas vossas mãos – literalmente.

Até ao próximo post!
Abraço
Nuno