Porque a IA não vai substituir os developers (e quem pensa que vai está redondamente enganado)

Olá a todos!

Tenho acompanhado com atenção crescente e, admito, alguma frustração o discurso que circula nos corredores das empresas tecnológicas e nos feeds do LinkedIn. A narrativa é sempre a mesma: “A IA vai substituir os developers júnior”, “Já não precisamos de contratar recém-licenciados”, “Os LLMs fazem tudo o que um júnior faz, mas melhor e mais barato”. E hoje venho dizer-vos uma coisa de forma direta e sem rodeios: isto é uma das ideias mais estúpidas que já ouvi na indústria tecnológica. E não sou só eu a dizer isto, é o CEO da AWS, Matt Garman, que recentemente expressou exatamente esta opinião numa entrevista para o podcast do WIRED.

Vou explicar-vos porquê, com argumentos concretos, baseados em experiência real e não em hype de PowerPoints corporativos. E fica já o aviso á navegação: este não é um post para agradar a CFOs obcecados com “otimização de custos” nem a consultores que vendem transformação digital como se fosse sabão de Marselha. Este é um post sobre a realidade brutal do desenvolvimento de software e sobre porque as empresas que seguirem esta estratégia vão arrepender-se amargamente nos próximos anos.

A Falácia da Substituição: Quando o Excel Mente sobre Produtividade

Vamos começar pelo erro fundamental que está na base de toda esta discussão. Quando alguém numa sala de reuniões diz que “a IA pode substituir developers júnior”, está a fazer uma suposição profundamente errada sobre o que um developer júnior realmente faz numa organização.

A visão simplista é esta: um developer júnior escreve código simples, a IA também escreve código simples, logo podemos dispensar o júnior e usar a IA. Num slide de PowerPoint, isto até parece fazer sentido. Na realidade do desenvolvimento de software? É completamente ridículo.

Um developer júnior não é apenas uma máquina de produzir linhas de código. É alguém que está a aprender o contexto do negócio, a compreender as decisões de arquitetura, a absorver a cultura de engenharia da equipa, a desenvolver intuição sobre trade-offs, a construir relações com os colegas, a questionar decisões antigas que já não fazem sentido, e sim, também a escrever código. Código que é revisto, melhorado, e que serve como base de aprendizagem tanto para o júnior como para quem o revê.

Quando Matt Garman diz que cortar developers júnior é uma das ideias mais estúpidas que já ouviu, ele está a falar com a autoridade de quem dirige uma das maiores plataformas de cloud do mundo. E aponta três razões fundamentais que qualquer pessoa com experiência real em gestão de equipas de engenharia reconhece imediatamente.

Razão 1: Os Júniors São Nativos das Ferramentas de IA (E Isso É Irónico)

Aqui está uma ironia deliciosa que muitos gestores ignoram completamente: os developers júnior que acabaram de sair da universidade são frequentemente os mais hábeis a usar ferramentas de IA para desenvolvimento. Cresceram com ChatGPT, GitHub Copilot, e todas as outras ferramentas que surgiram. Não têm os vícios de décadas de desenvolvimento sem assistência de IA, não têm resistência à mudança, não têm ego ferido por pedir ajuda a uma máquina.

Já vi isto acontecer repetidamente. Um developer sénior com vinte anos de experiência olha para o Copilot com desconfiança, questiona cada sugestão, insiste em fazer tudo manualmente porque “sempre fez assim”. Um júnior? Usa a ferramenta de forma natural, integra-a no seu workflow, aprende os seus pontos fortes e limitações através de experimentação constante, e acaba por ser mais produtivo precisamente porque não tem preconceitos sobre como o trabalho “deve” ser feito.

Numa indústria que está a ser transformada pela IA, ter pessoas na equipa que são nativamente fluentes nestas ferramentas não é opcional, é essencial. E ironicamente, essas pessoas são precisamente os júniores que alguns querem dispensar. É como decidir que, numa empresa de media digital, não precisamos de contratar jovens porque não entendem como funcionava a imprensa tradicional. Completamente ao contrário do que seria lógico.

Os júniors não veem a IA como competição ou ameaça. Veem-na como mais uma ferramenta no toolkit, como Git, como Docker, como Kubernetes. E esta mentalidade é exatamente o que as equipas de desenvolvimento precisam para navegar a transformação tecnológica que estamos a viver.

Razão 2: A Matemática Não Mente, Mas Gestores Conseguem Interpretar Mal

Vamos falar de dinheiro, já que parece ser a língua que mais ressoa nas salas de reuniões corporativas. O argumento é simples na superfície: júniors são pagos menos, logo são um target óbvio para “otimização de custos”.

Mas aqui está o problema: se estás a tentar cortar custos numa organização tecnológica e o teu primeiro impulso é despedir as pessoas menos pagas, tens um problema sério de compreensão de estrutura de custos. É como tentar reduzir a conta do supermercado cortando no papel higiénico em vez de repensar se precisas realmente de comprar salmão selvagem todos os dias.

Um developer júnior numa empresa tecnológica em Portugal pode ganhar, digamos, 25 mil euros por ano. Um developer sénior pode facilmente ganhar 60, 70, 80 mil ou mais. Se tens dez júniors e cinco séniors, estás a falar de uma diferença de magnitude significativa. Cortar todos os júniors poupa-te 250 mil euros. Mas então o que acontece?

Os teus seniors, que estavam a fazer trabalho de alto valor, arquitetura, decisões estratégicas, mentoria, começam a ter que fazer todo o trabalho que os júniors faziam. Trabalho importante, sem dúvida, mas que não requer vinte anos de experiência para ser executado. Estás a pagar 80 mil euros por ano a alguém para fazer trabalho que poderia ser feito por alguém que ganha 25 mil. Onde está a otimização de custos? Na verdade, destruíste valor.

E isto nem sequer considera o custo de oportunidade. Aquele senior que agora está a fazer work júnior não está a fazer o trabalho sénior que só ele consegue fazer. Aquela arquitetura complexa que precisava de ser redesenhada? Adiada. Aquela dívida técnica crítica? Ignorada. Aquela nova feature estratégica? Ficou para depois.

Garman tem razão quando diz que, se estás a pensar em otimização de custos, os júniors não são o alvo lógico. Há dezenas de outras áreas onde o dinheiro é gasto de forma muito menos eficiente. Quantos consultores externos estão a ser pagos valores absurdos para fazerem trabalho que poderia ser feito internamente? Quantas licenças de software estão a ser pagas mas nunca usadas? Quantos middle managers existem que apenas criam reuniões e não agregam valor real?

Mas é mais fácil cortar na base, nas pessoas com menos poder político na organização, do que fazer as perguntas difíceis sobre estrutura organizacional e eficiência real.

Razão 3: Estás Literalmente a Matar o Teu Futuro

Esta é talvez a razão mais importante e a que mais frequentemente é ignorada porque os seus efeitos não são imediatos. É como fumar: não te mata hoje, mata-te daqui a vinte anos. Mas quando te mata, é tarde demais para mudar de hábitos.

Se pararmos de contratar e formar developers júnior hoje, o que temos daqui a cinco anos? Daqui a dez? Temos um gap geracional gigantesco na nossa organização. Temos seniors que começam a reformar-se ou a sair, e não temos ninguém para ocupar essas posições porque ninguém teve a oportunidade de crescer e desenvolver-se na empresa.

Já vi isto acontecer. Uma empresa decide que vai contratar apenas seniors “para aumentar a qualidade”. Durante dois, três anos, parece funcionar bem. As coisas movem-se rapidamente, não há muito tempo gasto em mentoria, todos são produtivos desde o dia um. Mas depois, gradualmente, os problemas começam a aparecer.

Os seniors começam a sair, como é natural. Vão para outras oportunidades, reformam-se, mudam de carreira. E quando isso acontece, não há ninguém preparado para ocupar essas posições. A empresa tem que contratar seniors do exterior, que não conhecem o código base, não conhecem o contexto histórico das decisões, não conhecem a cultura da organização. Cada saída torna-se uma crise porque não há continuidade, não há desenvolvimento de talento interno.

E aqui está outro ponto que Garman sublinha: os júniors trazem ideias novas. Não estão viciados em “sempre fizemos assim”. Questionam o status quo não por arrogância, mas por genuína curiosidade e falta de contexto histórico. E surpreendentemente, muitas vezes estas questões levam a insights valiosos.

Quantas vezes vi um júnior perguntar “porque é que fazemos isto desta forma?” e a resposta honesta ser “porque começámos a fazer assim há cinco anos e nunca mais questionámos”? Quantas vezes essa pergunta levou a equipa a repensar uma abordagem e encontrar uma solução melhor?

Os júniors também trazem conhecimento sobre novas tecnologias, novas frameworks, novas abordagens que aprenderam na universidade ou através de projectos pessoais. Enquanto os seniors estão ocupados a manter sistemas legacy, os júniors estão a explorar o que há de novo, e essa dinâmica é saudável para qualquer organização tecnológica.

Matar o pipeline de talento é suicídio organizacional a prazo. Ponto final.

A IA Como Ferramenta, Não Como Substituto: Uma Distinção que Muitos Não Conseguem Fazer

Agora vamos falar sobre a IA em si e o seu papel real no desenvolvimento de software, porque há muita confusão e muito hype que obscurece a realidade.

A IA, particularmente ferramentas como GitHub Copilot, ChatGPT, e outras, são extraordinariamente úteis. Não vou negá-lo. Uso-as diariamente. Aceleram imenso certas tarefas, especialmente código boilerplate, testes unitários, documentação, e até debugging de problemas específicos.

Mas aqui está o que a IA não faz, e isto é crítico: a IA não compreende o contexto completo do teu negócio, não compreende as restrições políticas e organizacionais dos teus projetos, não compreende o débito técnico que acumulaste ao longo dos anos, não compreende porque é que aquele módulo específico está escrito de forma estranha (porque foi um workaround para um bug numa biblioteca externa que já não existe), e não compreende a visão estratégica de onde o produto precisa de estar daqui a dois anos.

A IA é uma ferramenta que amplifica as capacidades de um developer. Um júnior com IA torna-se mais produtivo. Um senior com IA torna-se ainda mais produtivo. Mas a IA sozinha, sem um humano que compreenda o contexto, que faça as perguntas certas, que valide as respostas, que integre o código no sistema maior? É praticamente inútil para qualquer trabalho real de complexidade.

Quando usas ChatGPT para gerar uma função, essa função precisa de ser revista, integrada, testada. Precisa de ser pensada no contexto do sistema maior. Precisa de considerar edge cases, segurança, performance, manutenibilidade. A IA pode sugerir uma solução que funciona isoladamente mas que quebra cinco outras coisas no sistema porque não compreende as dependências.

É por isso que a ideia de substituir júniors por IA é fundamentalmente errada. Não estás a substituir like-for-like. Estás a remover um humano capaz de aprender, crescer, compreender contexto, e tomar decisões informadas, e a substituir por uma ferramenta que gera texto baseado em padrões estatísticos sem qualquer compreensão real.

O Mercado de Trabalho Está a Mudar, Mas Não da Forma Que Pensas

Há um outro aspecto desta discussão que raramente é mencionado: o mercado de trabalho para developers está de facto a mudar, mas não porque a IA vai substituir júniors. Está a mudar porque as skills necessárias estão a evoluir.

Num mundo onde a IA pode gerar código boilerplate instantaneamente, o que se torna mais valioso? A capacidade de escrever um for loop perfeitamente? Não. O que se torna valioso é saber quando usar um for loop versus uma abordagem funcional, saber como estruturar um sistema para ser manutenível, saber comunicar com stakeholders não técnicos, saber fazer trade-offs entre velocidade de desenvolvimento e qualidade de código, saber trabalhar em equipa e fazer code reviews construtivos.

Os júniors que têm sucesso nos próximos anos serão aqueles que entendem que a IA é uma ferramenta no toolkit, não o toolkit completo. Serão aqueles que usam a IA para acelerar tarefas mecânicas e dedicam o tempo economizado a aprender sobre arquitetura, sobre o domínio do negócio, sobre como trabalhar efetivamente em equipas.

E aqui está algo interessante: os júniors de hoje já compreendem isto. Cresceram num mundo onde a informação está disponível instantaneamente, onde podes googlar qualquer sintaxe, onde Stack Overflow tem resposta para quase tudo. Já desenvolveram a skill de saber procurar e avaliar informação rapidamente. A IA é apenas mais um passo nessa evolução.

Numa conferência recente, ouvi um júnior descrever o seu workflow: usa a IA para gerar o código base, depois passa tempo a compreender esse código, a melhorá-lo, a pensar em edge cases que a IA não considerou, a integrá-lo no sistema maior, a escrever testes comprehensivos. O resultado? É mais produtivo do que seria sem IA, mas o tempo não foi eliminado, foi redistribuído para tarefas de maior valor.

Isto não é substituição, é augmentação. E qualquer empresa que não compreende a diferença está a preparar-se para um rude despertar.

As Empresas que Vão Ganhar nos Próximos Anos

Vou fazer uma previsão: as empresas que vão dominar a indústria tecnológica nos próximos cinco a dez anos não serão aquelas que cortaram aggressivamente em júniors para “otimizar custos”. Serão aquelas que investiram em formar talento, que criaram culturas de aprendizagem, que deram aos júniors ferramentas de IA mas também mentoria humana, que construíram pipelines de talento robustos.

Porquê? Porque tecnologia move-se rapidamente, e a única constante é mudança. As empresas que têm equipas capazes de aprender rapidamente, de se adaptar, de absorver novas tecnologias e abordagens, são as que sobrevivem e prosperam. E essas capacidades desenvolvem-se através de investimento em pessoas, não através de substituição por ferramentas.

Pensa na Amazon, na Google, na Microsoft. Estas empresas têm programas massivos de contratação de recém-licenciados. Têm programas de estágios estruturados. Investem milhões em formar júniors. Porquê? Porque são estúpidas? Porque não percebem que “poderiam poupar dinheiro com IA”? Claro que não. É porque compreendem que o investimento em talento humano é o que cria vantagem competitiva sustentável.

A IA vai mudar o trabalho dos developers? Sem dúvida. Vai tornar alguns aspectos do trabalho mais eficientes? Absolutamente. Vai substituir a necessidade de ter humanos a escrever código, especialmente humanos júnior que estão a aprender? Não. Nem perto.

O Erro de Ver Pessoas Como Custos em Vez de Investimentos

Há algo profundamente errado na forma como muitas empresas tecnológicas pensam sobre pessoas. Veem-nas como custos no balanço, como recursos a serem otimizados, como números num Excel que precisam de ser minimizados.

Esta mentalidade é cancerosa para qualquer organização que depende de conhecimento e criatividade. Um developer não é equivalente a uma máquina numa linha de produção. Não podes simplesmente substituir um por uma versão mais barata ou automatizada e esperar o mesmo output.

Um developer, especialmente um júnior que está a crescer na organização, é um investimento. Investes tempo em mentoria, em code reviews, em dar feedback construtivo. Investes em erros que serão cometidos e aprendizagens que daí resultarão. E o retorno desse investimento? Vem ao longo dos anos, à medida que esse júnior se torna um developer competente, depois sénior, depois talvez até líder técnico ou arquiteto.

E ao longo desse caminho, esse developer desenvolveu conhecimento profundo sobre o teu negócio, sobre os teus sistemas, sobre a tua cultura. Esse conhecimento tem valor imenso e não pode ser facilmente substituído ou replicado.

Quando cortas júniors em nome de “otimização de custos”, estás a destruir esse ciclo de investimento e retorno. Estás a dizer que preferes poupar algum dinheiro hoje do que construir a organização que precisas para ter sucesso amanhã. E isso, no longo prazo, é uma forma garantida de falhar.

A Dimensão Ética que Ninguém Quer Discutir

Há ainda uma dimensão desta discussão que é profundamente desconfortável mas que precisa de ser abordada: a dimensão ética.

Quando uma empresa decide cortar júniors e substituí-los por IA, está a fechar a porta de entrada para a indústria tecnológica. Está a dizer a recém-licenciados: “desculpa, não há lugar para ti aqui, mesmo que tenhas estudado anos para isto”.

Já é suficientemente difícil para jovens entrar na indústria tecnológica. Há a pressão de ter um portfólio impressionante, de ter feito estágios, de conhecer dezenas de tecnologias. E agora vamos dizer-lhes que, mesmo assim, não há posições de entrada porque decidimos que a IA é mais barata?

Isto cria um problema sistémico. Se nenhuma empresa contrata júniors, onde é que esses júniors vão ganhar experiência? Como é que alguém se torna um senior sem nunca ter sido júnior? Estamos a criar uma geração perdida de potencial talento tecnológico?

E não, não é realista esperar que toda a gente entre na indústria através de startups ou projetos pessoais. Muitas pessoas precisam de um salário estável, especialmente se vêm de backgrounds menos privilegiados. Quando cortamos posições júnior, estamos desproporcionalmente a fechar portas para pessoas que não têm a rede de segurança financeira para arriscar.

Há uma responsabilidade que as empresas tecnológicas têm, gostem ou não, de contribuir para o ecossistema que as suporta. Isso inclui formar a próxima geração de talento. Não é só sobre o que é melhor para o teu balanço trimestral, é sobre sustentar uma indústria saudável a longo prazo.

As Histórias que Não Aparecem nas Métricas

Vou partilhar algumas histórias reais que testemunhei ao longo dos anos, porque números não capturam tudo.

Vi um júnior que entrou numa equipa sem saber praticamente nada de desenvolvimento web. Seis meses depois, estava a contribuir de forma significativa. Um ano depois, estava a liderar pequenos projetos. Dois anos depois, era um dos developers mais produtivos da equipa e estava a mentorar os novos júniors. Esse júnior trouxe energia, ideias frescas, e eventualmente tornou-se um ativo inestimável para a organização.

Vi também um júnior que fez uma pergunta “estúpida” numa code review: “porque é que temos este serviço separado que apenas faz X quando poderia estar integrado no serviço principal?” A resposta? “Boa pergunta, não há realmente uma boa razão.” Essa pergunta levou a uma simplificação da arquitetura que poupou custos significativos de infraestrutura e reduziu a complexidade do sistema.

Vi júniors identificarem bugs subtis que seniors tinham ignorado, não porque eram mais inteligentes, mas porque olhavam para o código com olhos frescos, sem as assunções que vêm com familiaridade.

Estas contribuições não aparecem em nenhuma métrica de “linhas de código produzidas” ou “tickets fechados”. Mas fazem diferença real na qualidade do produto e na saúde da equipa.

A IA pode escrever código. Não pode fazer perguntas incisivas que desafiam assunções. Não pode trazer perspetivas frescas. Não pode criar a dinâmica de equipa que vem de ter pessoas em diferentes estágios de carreira a trabalhar juntas.

O Que Deveríamos Estar a Fazer Em Vez Disso

Se todo este discurso de cortar júniors é uma distração perigosa, qual é a abordagem certa? Como é que empresas tecnológicas deveriam realmente pensar sobre IA e talento júnior?

A resposta é: invistam nos vossos júniors e deem-lhes ferramentas de IA. Não é um ou outro, é ambos.

Criem programas de onboarding estruturados onde júniors aprendem não apenas a escrever código, mas a usar IA de forma eficaz. Ensinem-lhes quando confiar nas sugestões da IA e quando questionar. Ensinem-lhes a usar IA para acelerar tarefas mecânicas e dedicar tempo a aprender aspectos mais complexos do sistema.

Invistam em mentoria. Sim, mentoria consome tempo de seniors. Mas esse tempo é um investimento, não um custo. Um senior que passa algumas horas por semana a mentorar júniors está a multiplicar o impacto da sua experiência através da equipa. Está a criar júniors mais competentes, mais rapidamente, que eventualmente vão aliviar carga dos próprios seniors.

Criem culturas onde é seguro fazer perguntas e cometer erros. Júniors precisam de espaço para aprender, e aprendizagem vem de tentativa e erro. Se criais um ambiente onde erros são punidos severamente, os júniors vão ter medo de tentar coisas novas, vão ter medo de questionar, e vão crescer muito mais lentamente.

Usem IA para fazer os júniors mais produtivos, não para substituí-los. Que tal usar IA para gerar documentação automaticamente, libertando tempo dos júniors para trabalharem em features mais interessantes? Que tal usar IA para fazer code review preliminar, identificando problemas óbvios antes de um humano olhar, tornando o processo mais eficiente?

E talvez mais importante: parem de ver júniors apenas através do prisma de “quanto custam” e comecem a vê-los como “que valor podem criar ao longo da sua carreira aqui”. É uma mudança de mindset fundamental, mas é essencial.

Conclusão: A Escolha que Vai Definir Organizações

Estamos num momento de escolha na indústria tecnológica. A IA está a transformar como trabalhamos, isso é inegável. A questão é: como vamos responder a essa transformação?

Podemos ir pelo caminho fácil e míope: cortar júniors, tentar substituí-los por IA, poupar algum dinheiro no curto prazo, e congratularmo-nos pela nossa “inovação”. E depois, daqui a cinco anos, descobrir que criámos organizações ocas, sem pipeline de talento, sem capacidade de adaptação, lutando para competir contra empresas que fizeram a escolha certa.

Ou podemos ir pelo caminho mais difícil mas sustentável: investir em talento júnior, dar-lhes ferramentas de IA para serem mais eficazes, criar culturas de aprendizagem contínua, e construir organizações resilientes e adaptáveis que estão preparadas para o futuro.

Matt Garman tem razão quando diz que a ideia de substituir júniors por IA é uma das mais estúpidas que já ouviu. Não é apenas estúpida de um ponto de vista técnico ou económico, é estúpida de um ponto de vista estratégico a longo prazo.

As organizações que vão prosperar são aquelas que compreendem que tecnologia serve pessoas, não o contrário. São aquelas que investem em humanos mesmo quando seria mais barato não investir. São aquelas que veem a IA como ferramenta de augmentação, não de substituição.

E aos júniors que estão a ler isto e se preocupam com o futuro da vossa carreira: não tenham medo da IA. Abracem-na. Tornem-se experts em usá-la eficazmente. Mas lembrem-se sempre que o vosso valor não está apenas no código que escrevem, está na vossa capacidade de aprender, de crescer, de fazer perguntas inteligentes, de trabalhar em equipa, e de contribuir para construir produtos que importam.

A indústria tecnológica precisa de vocês. Não deixem que ninguém vos convença do contrário.

Até ao próximo post, continuem a aprender, continuem a crescer, e lembrem-se: somos mais do que as linhas de código que produzimos.

Um abraço,
Nuno